História
A Primeira Igreja

A primitiva capela, citada algumas vezes como ermida, mas também como igreja, ficava situada na margem esquerda da caudalosa ribeira, sofrendo constantemente a ameaça das águas da mesma. Nesse sentido, pelo menos em 1699, temos referência à construção de uma poderosa muralha para a proteger, no entanto, mesmo assim, poucos anos depois, uma terrível aluvião, danificou bastante a primitiva capela, inclusivamente, arrastando o túmulo do Rei Pequeno para o mar, como já escrevemos.
É tradição, ter tido a primitiva capela origem num milagre. Alguém teria encontrado uma imagem de Nossa Senhora nas serras, entre as faias, tendo então sido construída a capela para a imagem aparecida de Nossa Senhora do Faial. Mais tarde, assaltando o mar alterado a primitiva capela, levou a imagem, reencontrada depois na Pedra da Pescaria, segundo lenda mais completa que voltaremos a descrever.

A tradição da construção da matriz do Faial com um só tronco de cedro foi vinculada por Henrique Henriques de Noronha nas suas Memórias Seculares e Eclesiásticas, trabalho encomendado pela recém criada Academia Real da História Portuguesa, datado de 1722, mas que descreve a anterior matriz, então parcialmente arruinada e a ser reconstruída.
Descreve assim o cronista a costa Norte: "Adiante, uma légua do Porto da Cruz, fica a igreja Paroquial de Nossa Senhora do Faial, cujo nome tomou do lugar, onde se diz que foi achada a sua Imagem, por haver nele grande quantidade de faias, sendo a sua invocação da Natividade, de que faremos mais dilatada memória no título das Romagens, por ser de grande devoção e concurso. A Igreja é nobre, toda edificada de cantarias e se diz que foi fabricado toda de um só pau de cedro, que ali se achou. Está situada ao pé de um monte entre duas ribeiras".

Por esta época, embora um pouco antes, também frei Agostinho de Santa Maria (?; 1728) no seu tomo X do Santuário Mariano e História das Imagens Miraculosas de Nossa Senhora e das Milagrosamente Aparecidas refere que 'a igreja era muito grande e de grande comprimento e largura, e ainda assim dizem que foi toda emadeirada com a madeira que deitou um só pau de cedro, sinal que devia ser muito grande ou grandíssimo, o qual se achou ali perto da mesma ermida de Nossa Senhora".
A importância da capela de Nossa Senhora do Faial pode ainda ser enquadrada na romaria, já amplamente descrita pelo Dr. Gaspar Frutuoso:
"Pelo seu dia que vem a oito de Setembro, se ajuntam de romagem de toda a ilha passante de oito mil almas, onde se vê uma rica feira de mantimentos e de muita carne gostosa ( ... ). Ali se ajuntam muitos cabritos e frutas, e outras coisas de comer, para os romeiros comprarem, os quais muitas vezes se deixam estar dois, três, e mais dias em Nossa Senhora, descansando do trabalho do caminho, porque vem de dez e doze légua, por terra muito fragosa, e juntos fazem muitas festas de comédias, danças, e musicas de muitos instrumentos de violas, guitarras, flautas, rabis, e gaitas de fole. E pelas faldas das ribeiras, que tem grandes campos, no dia de Nossa Senhora e em seu oitavário, se alojam os romeiros em diversos magotes, fazendo grandes fogueiras entre aquelas serranias".
A Igreja Nova

A capela de Nossa Senhora do Faial, em que foi instalada a sede da paroquia, ficava na margem esquerda da ribeira, estando muitas vezes na iminência de ser arrastada pela violência da corrente nas invernias mais rigorosas, tendo-se, no ano de 1699, mandado proceder à construção de uma muralha destinada a proteger o templo, devido ás diligências do vigário de então, o padre Manuel Catanho de Meneses, citando o mandado do Conselho da Fazenda: "pelo menor lanço".
A igreja estaria pronta em 1785, em linhas gerais, pois por breve ponticio de 30 de Agosto desse ano foi concedida indulgencia plenaria aos que a visitassem por ocasião da festa do respectiva padroeira, que e a 8 de Setembro dia da Natividade da Virgem. No entanto, depois dessa data ainda temos referência a pequenos arranjos. Assim, em Outubro de 1787, o mestre das obras reais João António Vila Vicêncio mandou fazer obras no muro de suporte d- igreja, obra que foi dada como pronta e paga, em Abril de 1788, importando em 248$950 réis.

Nessa sequência, ou mais provavelmente nessa vistoria, teria João António Vila Vicêncio determinado mais algumas obras, pois ficou como encarregado das mesmas João Nepumoceno de Freitas Leal, provavelmente o capitão-cabo das freguesias do Porto da Cruz e do Faial, como veremos mais à frente, entre Abril de 1788 e Dezembro de 1796, tendo então importado as mesmas em 4:600$000, o que é uma verba bastante avultada. Aliás durante essa última campanha de obras, pediu o então vigário, padre João Martins, uma série de ornamentos, que foram satisfeitos no ano seguinte, já com novo vigário, o padre António Nunes, a 21 de Junho de 1794.
No século XIX só sabemos de ter havido algumas reparações nos inícios, na superintendência do mestre das obras reais António José Barreto, entre Setembro de 1811 e Outubro de 1813, levados a cabo pelo mestre de obras José Gomes Jardim, que custaram 1:373$600 réis à fazenda real.
A fábrica da Igreja estava abonada, desde 1574, com 4$000 réis por ano para as suas despesas de conservação, o que dava para a manutenção, mas era manifestamente insuficiente para obras de outro vulto e mesmo para a aquisição de determinadas alfaias, quase sempre pagas pela fazenda real. Em 1664, por exemplo, enviou a fazenda real um mandado de 333$500 réis "para ornamentos e mais coisas necessárias", então a requerimento do vigário Henrique de Madureira Figueira.

A capela estaria de novo muito arruinada pela primeira metade do século, tendo sido reconstruída por mandado do Conselho da Fazenda de 20 de Novembro de 1744. Foi então a igreja traçada e orçamentada pelo mestre das obras reais João Moniz de Abreu e a obra dada de arrematação ao mestre carpinteiro Cristóvão Gomes de Sousa pelo lance de 7:980$000 réis.
A construção teve efeito na margem oposta da ribeira, em local mais resguardado que a anterior, tendo a primeira pedra sido lançada a 5 de Agosto do seguinte ano de 1745. No final do ano de 1747 eram já enviados 1:611$620 réis para a aquisição de um turíbulo, uma naveta e um sino "de 185$000 para cima". O pedido da população para reconstrução da igreja pareceu quase profético, pois em 15 de Dezembro de 1744, toda a área foi parcialmente destruída por uma série de grandes chuvadas, que ao longo de 8 dias fizeram transbordar as ribeiras "e levaram ao mar as casas, e as fazendas em que tinham plantados os seus inhames, para sua sustentação, ficando o chão em pedras e os suplicantes impossibilitados de se refazerem da perda", como referem depois os habitantes da freguesia a D. João V. Ainda acrescentam os mesmos, "que para não morrerem de fome, tinham já ido pedir por esta Ilha", pelo que solicitavam a misericórdia do Rei para que mandasse vir dos Açores 100 moios de trigo. O Rei despachou o pedido em 1747, mas com 20 moios de trigo e 20 de milho.
O terramoto de 1748 não teria afectado o andamento das obras, pois a fazenda régia orçamentou em 1753 as obras de talha e douramento do altar-mor, assim como da residência paroquial.
No entanto, as arrematações então feitas não teriam sido cumpridas, pelo que em 1770, foi proposto ao Conselho da Fazenda a realização do retábulo e do camarim por "administração directa" da paróquia, na base do anterior orçamento de 2:200$000 réis, o que se fez. Entretanto, em 1768 tinham já sido atribuídos 1:983$690 réis para os "ornamentos e peças de prata", assim como 215$950 "para um sino de 20 arrobas", então enviado de Lisboa.

Conhecemos a igreja através de algumas fotografias antigas, mau grado a inferior qualidade, mas principalmente por um desenho aguarelado de Andrew Piken, datável de 1842 e proveniente da colecção Torre Bela, hoje propriedade da Câmara Municipal do Funchal. Uma versão deste desenho, mas não aguarelada, faz ainda parte da colecção da casa-museu Dr. Frederico de Freitas.
A Igreja aparece com fachada relevada, encimada por cimalha de balanço em cantaria enquadrada e pilastras, com portal e janelão articulados, com o janelão ladeado por aletas e encimado por florão rematado por flor de Liz. Do lado do Evangelho existe torre sineira, com duas janelas quadradas e janela dos sinos com arco de volta perfeita, rematada por cimalha relevada em cantaria com eirado em "chapéu de cónego".
Existem, no entanto, neste desenho, dois pormenores bizarros. A cimalha da fachada é rematada com cruz de calvário com os braços revirados para cima, de que não conhecemos outro exemplo na Madeira. O adro da Igreja é murado e, sobre o muro, existe cruzeiro com grande cruz patriarcal, com os braços rematados por bolas, o que deve ser imaginação do artista, pois desconhecemos a presença de qualquer patriarca na Madeira para uma cruz deste tipo poder ter sido levantada.
Fonte: Livro “A freguesia do Faial” por Rui Carita, edição conjunta da Casa do Povo do Faial, Paróquia do Faial e Junta de Freguesia do Faial, ano 2000.